Um dia, tudo que você conhece deixará de existir.
E não estou
falando de inovações tecnológicas que colocarão abaixo tecnologias atuais. Não
estou falando do carro que voa ou da impressora 3D (que inacreditavelmente já existe).
Eu estou falando do dia que você não fizer mais
parte daqui. Dessa vida. Desse plano. Quando as coisas forem diferentes pra
você, porém, a mesma coisa pra quem ficou pra trás.
Esse dia, será assustador. Para os outros. Por
você que se foi eu não posso dizer. Mas, afirmo que antes de partir, o medo do
desconhecido te tomava por inteiro.
E a vida?
Ainda não sei, mas acho que ela tem um
propósito. Há algo maior por trás desse mistério. Você não está aqui apenas
para desfrutar das coisas boas. Carpe Diem nunca foi tão ilusório quanto uma
mentira. Viver a vida e pensar apenas nos prazeres que ela poderá te
proporcionar é ser mesquinho, degradante e envenena a alma.
Há muito mais nesse mundo do que conseguimos
captar. Há muita dor. Muito sofrimento. Desigualdade e ódio. E você, nasceu
longe disso. Aliás, longe não. Nasceu perto, só não tão perto quanto Natan
Gomes*.
Então, como viver sem pensar no outro? Sem
pensar em milhares de pessoas que não tem um teto? Não tem alimento, não tem
acesso a educação e saúde? Como viver sem pensar nas guerras (sociais,
religiosas, étnicas...)?
O mundo está cada vez mais desigual,
individualista, soberbo e insalubre.
O entretenimento não é o vilão. Podemos sim nos
divertir. Ler um bom livro. Assistir a um clássico do cinema ou ir ao show da
banda do momento.
O vilão, somos nós que esquecemos os limites. E
pior, esquecemos quem somos, o que viemos fazer e quem está do nosso lado.
A preocupação com banalidades é de tamanha
ignorância. A supervalorização do material é uma infeliz realidade.
E o propósito perde-se nos muitos significados
que um dicionário pode descrever. Assim como a compaixão, a empatia e o amor.
É... Não é só a água que está acabando nesse
mundo.
O amor está morrendo.
Não esse amor romântico que vemos nas novelas,
filmes ou experiências pessoais.
Estamos falando do amor genuíno. Aquele que você
tenta descrever, mas não consegue. Aquele que não se define por um simples
"eu te amo". Aquele que significa pensar no melhor para o outro e não
para você.
A realidade está cada vez mais deturpada, obscura e nebulosa.
E ai, um dia tudo vai deixar de ser como era
antes. Aliás, a cada dia que passa enxergarmos a diferença do passado não tão
longínquo. As mudanças correm - desesperadas - contra o tempo.
E a morte, é a única coisa que não conseguimos
mudar. Mesmo assim, desdenhamos de sua magnitude, de seu mistério e de sua
capacidade de transformar a realidade compartilhada.
Para ela (morte), não se precisa de muitos
insumos para gerar transformação.
Basta estar vivo.
*Natan Gomes vivia na comunidade de Antares quando foi assassinado próximo a sua casa. Ele tinha 12 anos. O autor do disparo, 17 anos.
Luciana Carvalho

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